CHÃO E ALMA DO SERTÃO NO ROMANCE DE VARGAS LLOSA

 

Zélia Roelofse-Campbell – Univ. of South Africa

Centro de Estudos Latino-Americanos

 

Introdução

 

Antes de começar a escrever o romance A Guerra do Fim do Mundo, (Vargas Llosa 1981)[1], Mario Vargas Llosa fez uma pesquisa extensa sobre Canudos. O que mais lhe chamou a atenção foram as deturpações que existiam sobre o assunto. A rebelião não só adquirira conotações políticas, mas o seu líder fora classificado como monarquista, o que levou os recém-instalados republicanos, assim como as forças armadas que os apoiavam, a considerarem-no como uma ameaça à nação. As autoridades do dia afirmavam que os rebeldes pretendiam re-instalar o Imperador exilado, D. Pedro II e restaurar a monarquia. O resultado dessa percepção foi que as autoridades e a imprensa do dia exageraram desproporcionadamente um acontecimento relativamente localizado (Gerdes 1985:169).

Apesar das numerosas publicações sobre a História de Canudos, o autor peruano detectou ainda uma certa ambigüidade à volta do episódio porque, como ele próprio comentou, a "História oficial" da rebelião estava baseada na versão dos acontecimentos segundo as forças do governo, quer dizer, as mesmas forças que haviam erradicado os rebeldes. Vargas Llosa achava importante que a história fosse contada do ponto de vista dos vencidos, ou seja, da perspectiva dos jagunços (Oviedo / Vargas Llosa 1980).

Mas como conseguí-lo, se alguns dos jagunços só estão documentados de maneira escassa, ao passo que outros são conhecidos apenas pelo seu nome? Mario Vargas Llosa não se preocupou em fornecer um relato histórico exato do evento, mas sim em providenciar um retrato acurado, embora fictício, da "realidade" da época. Para tal, ele viajou para o Nordeste do Brasil, uma região que ele desconhecia totalmente, lá permanecendo durante alguns meses. Nesse tempo ele pôde observar tanto a paisagem típica da região, quanto as características físicas e psicológicas da sua gente (Oviedo / Vargas Llosa 1980). Munido dessa experiência, Vargas Llosa sentiu-se preparado para a criação de "biografias" dos principais jagunços como personagens do seu romance. As "biografias" contam de maneira dramática como os jagunços se converteram à vida pregada por Antônio Conselheiro.

Nesta palestra, relataremos como Mario Vargas Llosa consegue transmitir a realidade da Terra e do Homem do Nordeste brasileiro na época de Canudos de tal maneira, que o leitor a percebe como realidade viva, que irá auxiliar na interpretação histórica, e não algo abstrato.

 

A sertaneja Jurema como personificação da terra e sociedade do sertão

 

Há poucas personagens femininas n'A Guerra do Fim do Mundo. Porém uma dessas ─ a personagem fictícia de Jurema ─ tem um papel central no romance. Ela incorpora informações importantes contidas n'Os Sertões e o faz de tal maneira, que esses fatos estão totalmente integrados na história. O mesmo se passa com outras personagens inventadas do romance, como por exemplo Galileu Gall, o Barão de Cañabrava e o jornalista míope. Jurema tem um papel duplo: por um lado, ela ilustra o complicado código de honra e moralidade que era então vigente no sertão; por outro lado, ela personifica a atração incrível que o sertão e, em particular, a caatinga, exercem sobre os seus habitantes.

O rigoroso código de honra que regia a vida dos sertanejos era quase medieval. A personagem do frenólogo e anarquista escocês Galileu Gall se dá conta disto quando consegue "ler" a cabeça de Rufino, um guia sertanejo casado com Jurema: "é um homem de idéias simples, inflexíveis, com um código de honra rigoroso" (Vargas Llosa 1981:62). Para Rufino, o estupro de sua mulher é a pior infelicidade que podia acontecer a qualquer homem do sertão, porque deixa uma mancha indelével de desonra sobre o seu lar (Vargas Llosa 1981: 160). Além disso, força-o à vingança, que consiste em matar tanto o perpetrador quanto a vítima, a sua própria esposa. Ironicamente, é o próprio estuprador, Gall, que escreve uma carta a uma editora de Lyons sobre o status das mulheres na Bahia. Na carta, ele expressa a sua indignação pela maneira opressiva como as mulheres são tratadas na sociedade altamente paternalista do sertão:

 

Escrevo de (...) uma terra onde as servidões morais e físicas das mulheres são extremas, pois são oprimidas pelo patrão, pelo pai, pelos irmãos e pelo marido. Aqui o terratenente escolhe as esposas dos seus parentes e as mulheres são espancadas em plena rua, por pais irascíveis ou maridos bêbados, perante a indiferença geral (Vargas Llosa 1981:88).

 

Como já indicamos, Jurema representa a terra, a paisagem do sertão. O nome "Jurema", embora não seja um nome incomum de mulher no Brasil, tem um significado bem específico no contexto do romance. A jurema, uma árvore que cresce na caatinga,


pertence ao gênero Acacia (Acacia jurema Mart. [Cunha 1944:38]). Euclides da Cunha explicou porque as juremas têm tanta importância para os habitantes do sertão:

 

As juremas, prediletas dos caboclos ─ o seu hachich capitoso, fornecendo-lhes, grátis, inestimável beberagem, que os revigora depois das caminhadas longas, extinguindo-lhes as fadigas em momentos, feito um filtro mágico ─ derramam-se em sebes, impenetráveis tranqueiras disfarçadas em fôlhas diminutas (Cunha 1966:125-126).

 

Ao criar a personagem de Jurema, Mario Vargas Llosa novamente transforma informações valiosas contidas n'Os Sertões. Além disso, o nome "Jurema" tem conotações sexuais. Durante a sua conversa com o jornalista míope, poucos meses após o término da guerra, o Barão não consegue parar de pensar em Jurema como uma espécie de fêmme fatale do sertão, por incrível que pareça:

 

De repente, veio-lhe a sensação absurda que sua antiga empregada doméstica de Calumbí era a única mulher do sertão, uma fatalidade feminina sob cujo inconsciente dominio caíam, mais cedo ou mais tarde, todos os homens vinculados a Canudos (Vargas Llosa 1981:475).

 

Este lado erótico de Jurema tem uma base científica interessante: os pagés da nação Tupí faziam uma bebida de jurema-branca, que induzia os seus bebedores a ter sonhos eróticos. A bebida ainda é usada no sertão do Nordeste e os seus efeitos são descritos pelo folclorista Luís da Câmara Cascudo (1979:419).

 

Jurema como personagem fictícia

 

Jurema, a esposa do guia Rufino, é mencionada pela primeira vez n'A Guerra do Fim do Mundo quando Galileu Gall bate à sua porta em busca do marido (Vargas Llosa 1981:62). Mais tarde Gall lembra-se dela como uma mulher sem nenhuma inclinação científica e com tendências ao devaneio. Ela é retratada também como sendo crédula e ingênua, pois acreditava na imagem de Santo Antônio que sempre voltava à gruta de onde havia sido retirada (Vargas Llosa 1981:62). A carta que Gall havia escrito ao jornal panfletário L'Etincelle de la révolte, na qual ele fica admirado pela maneira como as mulheres são tratadas no sertão, (ver acima), relaciona-se especificamente a Jurema. Ela "pertencia" ao Barão e à Baronesa de Cañabrava, que a "deram" em casamento ao afilhado Rufino. Gall, claro, interpreta os fatos a seu modo:

 

Um motivo de reflexão, companheiros: assegurar-se que a revolução não só suprima a exploitação do homem pelo homem, senão, também, da mulher pelo homem e estabeleça, juntamente com a igualdade de classes, a de sexos (Vargas Llosa 1981:88).

 

Sabemos, entretanto, que o próprio Gall quebra o seu código revolucionário quando ele estupra Jurema na ausência do marido dela (Vargas Llosa 1981:100). O fato de ele romper tão violentamente o seu voto de celibato que já durava dez anos pode ser interpretado como uma indicação do poder de atração de Jurema. Ele próprio (Gall) não compreende o estupro, refletindo para si mesmo, depois:

 

"Como pude fazê-lo? Por que pude fazê-lo?" Por que me precipitei sobre a moça? Ela o resistia e ele a havia espancado e, cheio de ansiedade, perguntou-se se a havia esbofeteado também quando ela já não resistia e se deixava desnudar (Vargas Llosa 1981:107).

 

A atração que Gall sente por Jurema não é fácil de explicar. Para começar, Jurema não é bonita: é magra, com os cabelos longos e soltos e uma pele lisa e lustrosa. Não é atraente, usando um vestido solto, sem mangas, sempre descalça e com os olhos perpetuamente pesados como se não tivesse dormido o suficiente (Vargas Llosa 1981:95). Não obstante, ela exerce uma atração sem limites sobre Gall e, mais tarde, sobre o terrível Pajeú e sobre o jornalista míope.

É uma ironia que o estrangeiro, Galileu Gall, que tentou compreender vários aspectos da região, vê-se prisioneiro de algo que ele nunca poderia entender porque, apesar de suas idéias e teorias, ele é um covarde oportunista. O estupro de Jurema é um ato de covardia. A sua baixa opinião dela, comparando-a com um mero animal, não constitui desculpa para uma ação tão desprezível:

 

Era um ser pensante? Um animalzinho doméstico, sem dúvida. Diligente, submisso (...) adestrado como as outras servas do Barão (Vargas Llosa 1981:108).

 


Jurema, igual a Rufino, é essencialmente fatalista sobre a sua situação após o estupro: Gall a desonrara e a violara contra a sua vontade e na ausência do seu marido. Mesmo assim, ela não tem outra alternativa senão a de seguir o estrangeiro e esperar pelo seu destino (Vargas Llosa 1981:173). O capanga do diretor do Jornal de Notícias, Caifás, tem ordens esplícitas para matar Galileu Gall; no entanto, ele prefere mentir para o seu patrão para não trair o seu amigo Rufino. Isto porque, segundo o estreito código de honra do sertão, Rufino ele mesmo tem que se vingar e matar o homem que o desonrou (Vargas Llosa 1981:176). Por outro lado, a omissão de Caifás significa que ele também é considerado "um homem de honra" pelos sertanejos (Vargas Llosa 1981:183).

Jurema rejeita Pajeú mas este, embora tendo a sua honra ferida, está completamente absorvido pela luta para poder fazer algo. Até o próprio Padre Joaquim prefere pregar a aquiescência ao código de honra dos jagunços do que ofender um homem tão perigoso como Pajeú. O padre prefere esquecer-se dos preceitos cristãos, pois Jurema ainda estava casada com Rufino, do que enfrentar o perigo à sua vida:

 

Não devemos magoá-lo. A suscetibilidade em gente como Pajeú é uma doença tremenda. Outra coisa que sempre me deixou estupefato é esse sentimento de honra tão melindroso. São uma chaga viva. Não possuem nada, mas lhes sobra honra. É a sua riqueza (Vargas Llosa 1981:418).

 

N'A Guerra do Fim do Mundo a personagem de Jurema faz juz ao seu nome, pois é refrigério e dá novas esperanças para todos os que dela se aproximam: Pajeú, o Anão abandonado, o jornalista míope que se encontra perdido e cujos óculos se haviam espatifado durante a luta, e que se encontrava praticamente cego na caatinga que lhe era totalmente estranha. O jornalista míope encontra em Jurema o verdadeiro amor pela primeira vez na vida. É Jurema que o guia até Canudos. Em amando-a, o jornalista também aprende a amar e compreender aquela terra e a sua gente. O Barão explica mais tarde que é Jurema que converte o jornalista míope em um "jagunço" (Vargas Llosa 1981:472).

N'A Guerra do Fim do Mundo Jurema é o vínculo entre os dois escritores que vêm do mundo civilizado e o sertão. O estrangeiro, Galileu Gall, nunca aprende a amá-la; ele só a usa para os seus próprios fins. Por outro lado, o jornalista míope aprende a amar tanto a mulher quanto o sertão, o que o leva a um desenvolvimento interior, transformando-o em um homem realizado e comprometido.

 

O Anão contador de estórias

 

No romance de Mario Vargas Llosa, o circo ambulante do cigano recolhe Jurema e Gall, quando este se encontra gravemente ferido numa área remota do sertão. É então que Jurema conhece o Anão, que é a estrela do circo. O Anão conta, com grande sensibilidade, estórias originárias da Europa medieval, por exemplo, as estórias da Princesa Magalona, da bela Silvaninha, de Carlos Magno e os Doze Pares de França, a estória de Roberto do Diabo e do cavaleiro Oliveiros e Ferrebrás (Vargas Llosa 1981:150).


 

O Anão e a tradição de literatura oral no Nordeste

 

A vida nas zonas rurais mais remotas do Brasil, até às primeiras décadas do século XX, quase não havia progredido mais do que quando estavam no século XVII. Nas fazendas quase não havia livros, e um dos passatempos prediletos era ouvir estórias. Este fato contribuiu para o estabelecimento de uma forte tradição de literatura oral (Cascudo 1984b:15) a qual, segundo Paul Sébillot (escrevendo em 1881), substituiu os textos literários (Cascudo 1984b:23). Um outro elemento é o analfabetismo vigente entre os jagunços ─ um dos temas abordados n'A Guerra do Fim do Mundo. No romance, só três pessoas sabem ler em toda Canudos: o Conselheiro, o Leão de Natuba e João Abade.

Essa tradição de literatura oral, com temas oriundos da Idade Média, ainda existe hoje em dia, e isto causou uma grande impressão em Mario Vargas Llosa. Na Bahia ele comprou, num quiosque em frente à catedral, um livreto da estória da batalha entre o cavaleiro Oliveiros e Fierebrás, que é um episódio de "Carlos Magno e os Doze Pares de França". A estória era contada na maneira tradicional, em versos octossilábicos, um exemplo do que, no Nordeste, é chamado literatura de cordel (Vargas Llosa 1979:45). A personagem do Anão foi incluída no romance propositadamente. Mais uma vez, a sua função é fornecer ao leitor informações sobre uma faceta importante da vida dos sertanejos, dando-lhe uma idéia da sua visão interior e do seu imaginário.

Muitos desses romances medievais que foram incorporados na literatura oral, têm a sua origem em livros que chegaram ao Brasil no século XVI. No Brasil, o conteúdo desses livros era transmitido em versos populares, os quais eram aprendidos de cor (Cascudo 1984b:194). No Nordeste brasileiro, os temas desses romances convertidos em verso possuiam sempre alguns elementos chave, por exemplo, entre outros: a recompensa para os justos, os bons e os oprimidos; a futilidade das riquezas; o castigo da soberba, da calúnia, etc. Os sertanejos assimilavam e adaptavam as estórias que, nos tempos de antanho, haviam deslumbrado os primeiros colônos, oriundos do Minho e Alentejo (Cascudo 1984a:28).

Euclides da Cunha escreveu sobre essa tradição, principalmente no que diz respeito aos "desafios", que eram bastante comuns, e os "autos", que eram peças teatrais com um conteúdo moral, trazidos ao Brasil séculos atrás (Cunha 1966:180).


 

O Anão contador de estórias n'A Guerra do Fim do Mundo

 

A tradição mencionada acima recebe várias menções no romance A Guerra do Fim do Mundo. Para começar, o narrador explica a tradição dos cantadores quando apresenta a "biografia" de João Abade, que tinha grande afeição pelas estórias de aventura:

 

Suas primeiras recordações (...) eram (...) os cantadores ambulantes. Vinham de tempo em tempo para animar os casamentos, ou iam rumo ao rodeio de uma fazenda ou a uma feira onde o povo festejava o seu santo padroeiro, e em troca de um trago de cachaça e um prato de carne de sol e farofa contavam as estórias de Oliveiros, da Princesa Magalona, de Carlos Magno e os Doze Pares de França. João as escutava com os olhos muito abertos, seus lábios movendo-se ao compasso dos do trovador (Vargas Llosa 1981:64-65).

 

No romance propriamente dito, a personagem do Anão representa tanto os cantadores ambulantes quanto o imaginário do povo do sertão. Igual ao Anão, a aparência da gente pode não ser aprazível, mas a sua mente está repleta de imagens ricas e exuberantes, de pessoas e lugares longínquos. Os cantadores ambulantes do sertão são o equivalente do aedo dos Gregos, os rapsodos ambulantes dos Helenos, os glee-men dos Anglo-saxões, e os trovadores e Meistersänger da Idade Média (Bettencourt 1954:56).

N'A Guerra do Fim do Mundo o Anão é uma personagem importante, pois ele reflete o mundo interior dos sertanejos. Ele é deformado, e isso representa as necessidades físicas que o sertão impõe aos seus habitantes, que têm que passar por muitas privações, principalmente no período das sêcas. Além disso, a atividade do Anão pode refletir a metáfora que expressa a idéia que, quando há escassês de alimento para o corpo, então o alimento da alma torna-se extremamente importante.

 

João Abade na História

 

A seriedade com que o sertanejo encara as estórias da literatura oral é transmitida n'A Guerra do Fim do Mundo através de João Abade, que é uma personagem histórica e que, na vida real, era conhecido pela extensão de sua crueldade e coragem.

N'Os Sertões, Euclides da Cunha faz um breve relato sobre a história pessoal de João Abade. Ele era encarregado de receber todos os cangaceiros recém-chegados a Canudos:

 


Dia a dia chegavam ao arraial singulares recém-vindos, absolutamente desconhecidos. Vinham "debaixo do cangaço" (...) Entravam pelo largo, sem que lhes indagassem a procedência (...) Recebia-os o astuto João Abade que, pleiteando-lhes parelhas na turbulência, tinha a ascendência de uma argúcia rara e uns laivos de superioridade mental, graças talvez à circunstância de haver estudado no liceu de uma das capitais do norte, de onde fugira após haver assassinado a noiva, o seu primeiro crime. O certo é que os dominava e disciplinava. "Comandante da rua", título inexplicável naquele labirinto de bitesgas, sem abandonar o povoado exercia-lhe absoluto domínio que estendia pela redondeza (Cunha 1966:294).

 

João Abade n'A Guerra do Fim do Mundo

 

Como personagem no romance A Guerra do Fim do Mundo, João Abade também é o Comandante da rua; mas além disso ele ganha uma "biografia" expandida com detalhes interessantes, principalmente no que diz respeito à sua paixão pelas estórias dos cantadores. A estória preferida de João Abade é uma que fala de crime, arrependimento e penitência ─ a estória de Roberto do Diabo: " mas a estória que chegou a ser carne da sua carne foi a de Roberto do Diabo" (Vargas Llosa 1981:65).

João Abade identifica-se com Roberto do Diabo, filho do Duque da Normandia. Roberto nascera após a sua mãe ter feito um pacto com o diabo. Esse Roberto praticou uma série de crimes hediondos; por isso ele recebeu o apelido de Roberto do Diabo até que, influenciado por um eremita, ele se arrependeu. Em penitência, ele passou por um longo período de sofrimentos e sacrifícios, transformando-se em homem de Deus. (No calendário cristão o seu dia é festejado no dia 15 de setembro.)

N'A Guerra do Fim do Mundo há um cangaceiro dos mais cruéis, chamado João Satã. Um dia, ele escuta um sermão de Antônio Conselheiro. João Satã emociona-se com a história, contada pelo Conselheiro, de um pecador que se arrepende e vai para o Céu. O cangaceiro é então rebatizado pelo Conselheiro, que oportunamente lhe muda o nome: "É melhor que te chames João Abade, quer dizer Apóstolo do Bom Jesus" (Vargas Llosa 1981:71).

Luís da Câmara Cascudo explica que a versão brasileira da História do grande Roberto do Diabo ou Roberto de Deus era de origem francesa. La vie du Terrible Robert le Diable viu a sua primeira impressão na França em 1496. A versão castelhana, publicada em Burgos em 1509 era La Espantosa y Admirable Vida de Roberto el Diablo, así al Principio llamado: Hijo del Duque de Normandía; el que después por su Sancta Vida fue

llamado Hombre de Dios (Cascudo 1979:196). A primeira edição portuguesa ─ História do Grande Roberto, Duque de Normandia e Emperador de Roma data de 1733 (Cascudo 1979:197).

Na fúria de uma luta, na última fase da guerra contra Canudos, João Abade, de longe, ouve o Anão contando uma estória. Ele para por um instante e indaga:

 

Conheces a Terrível e Exemplar História de Roberto do Diabo? ─ lhe pergunta.

O Anão, após um instante de vacilação, aquiesce.

─ Eu gostaria de ouví-la alguma vez ─ lhe tranqüiliza o Comandante da rua (Vargas Llosa 1981:348).

 

João Abade encontra tempo, mais tarde, para ouvir a sua estimada estória contada pelo Anão. No penúltimo segmento d'A Guerra do Fim do Mundo, depois do fim da guerra, os sete sobreviventes conversam sobre o evento, sobre os que foram mortos. A mulher de Vilanova argumenta que João Abade nada sofrera ao ter matado tanta gente inocente (uma referência no romance à prática da eutanásia pelos próprios jagunços). Ela diz ainda que ele não havia terminado a sua vida como João Abade, mas sim como João Satã (Vargas Losa 1981:520-521).

A essa altura o Anão, que está queimando de febre, retorta:

 

Eu vi João Abade chorar (...) Não se lembram, eu não lhes disse? Foi quando ouviu A Terrível e Exemplar História de Roberto do Diabo (Vargas Llosa 1981:521).

 

O narrador retoma a narrativa após um breve diálogo entre o Anão febril e os seus amigos. Ele conta de relance o que o Anão pensa e sente, ao recordar-se do seu encontro com João Abade. Delirando, o Anão fala de João Abade e Roberto do Diabo como se eles fossem uma só pessoa. O Anão fica apavorado ao notar um tremor no rosto de João Abade, pensando que este não gostava da dua maneira de contar a estória (Vargas Llosa 1981:521-522). O que o Anão não compreende é que o tremor no rosto de João Abade , e mais tarde as suas lágrimas, são um sinal do arrependimento do cangaceiro, quando sente uma profunda ansiedade ao interiorizar as ações de Roberto do Diabo (Vargas Llosa 1981:522).

O romance termina com um diálogo entre o Coronel Macedo e uma velhinha desdentada. O Coronel tem uma obssessão, sobre se o João Abade ainda está vivo, ou se havia morrido. A velha insiste, porém, que o famoso cangaceiro ainda está vivo:

 


Foi levado para o céu por uns arcanjos ─ disse, estalando a língua ─ Eu os vi

(Vargas Llosa 1981:531).

 

Conclusão

 

A história d'A Guerra do Fim do Mundo termina com a imagem de João Abade sendo transportado para o Céu por arcanjos. O significado dessa passagem não pode ser ignorado. Em primeiro lugar, o narrador deixa o leitor com a impressão que, em Canudos, havia algo divino; em segundo lugar, indica que as estórias sobre Canudos iriam perpertuar-se no folclore, mas enriquecidas pela imaginação do povo do sertão.

O contador de estórias que, no caso do romance é o Anão, incorpora o fértil imaginário do povo simples que habita o sertão do Nordeste. Ele representa as suas emoções, o seu modo de vida atavístico, o seu arraigado código de honra, e a sua forte crença em uma vida melhor e mais justa na eternidade.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BETTENCOURT, Gastão de. 1954 Flagrantes do Folclore do Brasil. Coimbra: Coimbra Editora Limitada.

CASCUDO, Luís da Câmara. 1979. Dicionário do Folclore Brasileiro, 5ª edição. São Paulo: Edições Melhoramentos.

_____. 1984aVaqueiros e Cantadores São Paulo: Editora Itatiaia Limitada, Universidade de São Paulo.

_____. 1984bLiteratura Oral no Brasil. São Paulo: Editora Itatiaia Limitada, Universidade de São Paulo.

CUNHA, Euclides da. 1944. Rebellion in the Backlands. Translated by Samuel Putnam. Chicago: The University of Chicago Press.

_____. 1966. Os Sertões in Obra Completa, Vol. II, ed. por Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora.

GERDES, Dick. 1985. Mario Vargas Llosa. Boston: Twayne Publishers.

OVIEDO, J.M.; VARGAS LLOSA, M. 1980. Historia de la historia de la historia: conversación en Lima. Escandalar vol. 3, No. 1, pp. 82-87.

VARGAS LLOSA, MARIO. 1979. "Fierabrás y la utopía". Caretas, No 569, 10 September, pp. 44-46.

_____. 1981. La guerra del fin del mundo. Barcelona: Plaza y Janés. 4. ed.



[1] Todas as referências bibliográficas, bem como as citações, foram extraídas da edição espanhola ─ La guerra del fin del mundo (Vargas Llosa 1981). As traduções do castelhano para o português são minhas, assim como as traduções de outros textos cujo original está em inglês.